domingo, 27 de junho de 2010

A quantas anda a liberdade de opinião na União Européia:
http://operamundi.uol.com.br/opiniao_ver.php?idConteudo=1164&utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

discussão científica

por ocasião da minha cirurgia bucal, tive a oportunidade de perguntar ao meu ilustre médico-odonto a questão que minha dor de dente não se cansa de me colocar: sorvete é ótimo, mas se cerveja tb gela, pra que continuar sóbria?

sábado, 26 de junho de 2010

por uma ética reflexiva

desde o início, a obra de foucault gerou grande repercussão na frança por inúmeras razões. não foram poucos os que pretenderam duelar com o filósofo, para tanto o provocando de todas as maneiras. a postura dele, ao menos em sua fase madura, foi das mais mal interpretadas, pois diante das provocações simplesmente se calava.

não reagia no momento, ao menos. negava-se a responder, a entrar no jogo que se mostrava sincero apenas em aparência. na verdade, não havia sinceridade possível no campo político. o duelo, pensava ele, só poderia resultar em duas situações, ambas detestáveis, a conversão ou a destruição de alguém. a disposição das pessoas, tal como posta em um campo desses, não permitiria outra consequência.

do contrário, ponderava motivos, refletia e publicava as objeções à sua teoria, assinalando respostas iou, não raro, deixando abertas as portas. certas questões que lhe foram opostas por pessoas e por si mesmo renderam anos e anos de silêncio - para melhor refletir (por exemplo, até a publicação do "o cuidado de si").

me lembro disso, pensando nas discussões políticas que tenho, especialmente na casa da lagartixa preta, mas também na facu. às vezes a gente não se ouve. dizer isso é trivial e profundamente verdadeiro. quando a situação está para se tornar um duelo, ganha (por todos) quem abdicar da resposta. mas também, suponho, só nos colocamos eticamente em uma discussão em que polemizamos de corpo e alma quando não perdemos de vista o silêncio que deve se abrir (em nós) após cada idéia lançada. cara, como isso é foda.

terça-feira, 22 de junho de 2010

então,

um quilo de abóbora descascada e cortada em pedaços mais ou menos quadrados e uniformes. 700gr de acúcar. cravo. canela.

pôr tudo na panela de pressão. sacudir a panela [sic] e colocar no fogo (sem água, nem nada) na potência alta, "até o apitinho fazer chichichi". quando ele começar a funcionar contar 8 min. e desligar. não abrir a panela até esfriar. se a calda estiver rala, separar a abóbora e apurar mais no fogo a calda até engrossar. depois jogar por cima.

c'est ça!

"doce de abóbora de 8 minutos"

a vó cira adorou essa história de receita e quer me passar outra!
só que ela fala muito rápido e toda hora devo pedir pra ela esperar um pouquinho. enquanto espera eu escrever outras coisas (como estas), ela começa a contar histórias - da minha tia, da minhã mãe, de um passado beem distante. mas, de repente, ela volta pro presente. agora mesmo me perguntou "isso aí não é que nem uma máquina de escrever? pensei que fosse!" respondi que era. ela arrematou: "ah, então, por que vc demora tanto?" (risos).

minha vó é muito linda, não sei por que nunca antes falei dela por aqui. na verdade, tem muitas pessoas lindas sobre as quais ainda não falei.

"doce de abóbora de 8 minutos" foi o nome que minha vó deu pra uma receita que ela disse que pegou não sabe com quem, nem quando, que ela provavelmente aprendeu e modificou, como costuma fazer. "tem açúcar demais nessa receita [da tv]", ou, espantada, "tudo isso de tempo? não sei como num queima".

puxa, enquanto escrevi isso, passou o tempo mesmo. agora começou a novela e ela foi pra sala. "fica pra depois". e, diante da minha cara de desapontamento: "eu volto no intervalo". humpf.

o peixe da minha vó cira

minha vó jacira faz um peixe ensopado sensacional e, a partir dele, um pirão bem famoso no prédio. é tão bom que resolvi registrar, até pro caso de alguém se animar a ir pra cozinha...

pegar um quilo de merlusa em filé (melhor as partes mais grossas) e temperar com sal e pimenta do reino. se fosse pra fritar ela ia colocar limão também, mas como é pra fazer ensopado não pode pra não coalhar. depois, coloca o peixe na panela por baixo e, em cima, cebola, tomate em rodela e azeite de oliva - na falta do dendê. deixar ferver (vai sair água do peixe, sem precisar adicionar). a seguir, colocar leite de vaca e, mais pro final, leite de coco. no final, adicionar coentro, se vc gostar.

pra fazer o pirão, separar uma parte do caldo do ensopado acima e colocar numa panela com farinha de mandioca. minha vó gosta de colocar pouca farinha pra deixar o pirão molinho. espetáááculo. ah, sim, minha vó disse aqui que essa receita dá pra 6 pessoas.

ei, vovó, sua receita de pernambuco tá na rede mundial!

terça-feira, 15 de junho de 2010

dizendo que mais de 100 ativistas do navio de ajuda humanitária que covardemente atacou eram envolvidos com terrorismo, israel tenta justificar "o que não tem conserto, o que não tem medida, o que não tem decência, o que não tem governo, o que não tem juízo, o que não tem tamanho".

mais infos sobre o ataque israelense:
http://noticias.r7.com/internacional/noticias/veja-cobertura-completa-do-ataque-israelense-20100531.html

o mundo da copa

Jornal de uma Copa do Mundo em solo minado (3ª parte)

As línguas recepcionam, todos os dias, palavras desconhecidas, sem jamais fazê-lo expressamente. e, de uma só vez, vê-se bem que a diversidade cultural está longe de ser uma realidade, um ponto de vista orgânico. Assim, a palavra « vuvuzela » que é dita no feminino, entrou em casa pela porta da frente, tornou-se familiar em menos de uma semana. Os meios de comunicação também servem para isso, vulgarizar as palavras que, em tempos comuns, seriam colocadas à sombra, no index, invisíveis, sem interesse. É suficiente ver as manchetes de certos jornais, por esses dias, para se convencer disso; é suficiente escutar os comentários dos jornalistas e dar uma olhada pela internet, a maior de todas as portas, hoje, do humor do mundo. Querem proibir a vuvuzela. Atribuem-lhe todos os males, como se este instrumento, que faz a diferença, tivesse criado algum barulho sobre um estádio, durante a Copa do Mundo ou simplesmente uma partida amigável, enquanto seus partidários defendem seu instrumento local em alto e bom som. Eis o Mundial ou a ocasião sonhada para que este barulho (que se mede aqui em quantos decibéis?) entre, de maneira fracassada, no imaginário de todos vindos da África do Sul.

Ao mesmo tempo, a abertura do futebol se dá, sempre, em meio ao barulho, fofocas, escândalos, publicidade, bling-bling, dinheiro e tudo o que já sabemos. Na comunicação, como na política, nada é por acaso. Assim, os Bleus vão reformar um campo de futebol de cidade x para cuidar da imagem de sua marca, arranhando de leve, como crianças terríveis, a Secretária de Estado encarregada pelo esporte.

Felizmente, outras equipes salvam o dia. Ontem, o time de Gana ofereceu seu primeiro gol na África: os torcedores podiam dançar e carregar [roupas de?] canários na cabeça. Eles já tomaram uma parte do poder, melhor guardar quente o resto dentro de um pote sagrado a exibi-lo a cada vitória. Com a Alemanha - que marcou 4 gols contra a Austrália - houve algumas belas coreografias, o esporte retomou a superioridade sobre o terreno do jogo, silencioso, escuro e minado depois do começo. As vuvuzelas foram recolocadas em um lugar de honra, dando ao público diante da tela da tv e a todos os torcedores, a ocasião de exultar cada gol, de cobrir esta bela partida Alemanha-Austrália, do começo ao fim. As vuvuzelas assumem a temperatura das equipes, a tonalidade dos jogos e, é preciso dizer, impedem que se escutem os insultos - aí inclusive os racistas - e outras ofensas que fazem parte do terreno minado do futebol.

Sei que zona eles são capazes de fazer, os torcedores alemães. As vuvuzelas são brinquedinhos comparadas com os espetáculos que eles podem dar a escutar e ver, tal como notei em 2006, durante o Mundial, quando passei em Stuttgart para um debate que achei surrealista, sobre futebol e literatura... Então, será que estamos realmente prontos a aceitar a diversidade dos sons, no momento em que cada um se fecha na sua surdez local?

Tanella Boni, ela nasceu na costa do marfim e tem escrito coisas interessantes sobre a copa. é poeta e romancista, filósofa e professora de literatura. tem coisas muito legais sobre a globalização, as áfricas, os feminismos, multiculturalismo e outras questões políticas. em 2008 lançou a obra "Como vivem as mulheres da África?". escreve no blog www.tanellaboni.net. fui saber dela hoje!

domingo, 13 de junho de 2010

"Há muito tempo queria trabalhar com Marco Antônio Braz. QUando lemos A ALMA BOA DE SETSUAN me impressionei com a atualidade e o humor do texto. Quando ele me disse que gostaria de encenar a peça porque acha que Brecht é divertido, me entusiasmei. Também acho. Brecht é divertido e tem a sabedoria de, através de uma história bem contada, dizer o que quer, questionando o caos social, no qual, inacreditavelmente, nos acostumamos a viver.
Quando Chen Tê é escolhida como a única alma boa achada pelos deuses cansados de procurar, ela mesmo duvida disso: "Como posso ser boa se tenho que pagar o aluguel?". Gosto dessa frase, gosto deste assunto. Quero viver Chen Tê para, junto com vocês, tentar decifrar o enigma deste mundo em que vivemos, onde o indivíduo parece ser incompatível com o todo. Onde já não basta ser bom, digno e coerente com o que se acredita. Onde tudo leva ao pensamento individual, cada um lutando desesperadamente pelo seu quinhão. Chen Tê traveste-se de 'seu primo' para conseguir dizer não, para conseguir não ser boa, para não ser usurpada. Será que vivemos a impossibilidade da bondade? Será que a existência de uma sociedade solidária é impraticável no meio de tamanha diferença social? Será que estamos condenados cada vez mais a não nos comprometermos? Aos fones de ouvido, aos e-mails rápidos, aos motoristas solitários indo para o mesmo lugar que seu vizinho de congestionamento, às cabeças baixas, medrosas de testemunhar algum crime?
Na verdade, não acho que a peça trate exatamente da impossibilidade da bondade, pois a própria palavra bondade já foi transfigurada pelos tempos que vivemos. Falar hoje que alguém é bom é quase falar que esse alguém é bobo. Acho que a peça fala claramente é da impossibilidade da disponibilidade, do coração aberto, da esperança. Mais que boa, Chen Tê é disponível. Acredita na possibilidade de vivermos em harmonia. É muito importante falarmos do cuidado que precisamos ter com o que estamos nos tornando, vivendo num mundo onde não dou mais a mão com medo que me tomem o braço, ignorando que, muitas vezes, só minha mão estendida moveria montanhas. Estamos falando de comprometimento, de sinal de alerta, estamos questionando por que precisa ser assim. Deve haver uma saída. Tem de haver! Tenho necessidade absoluta de contar esta história e estou muito feliz de estar ao lado de gente que admiro tanto para esta empreitada" Denise Fraga, Alma Boa de Setsuan, de Bertolt Brecht (em cartaz até 1º de julho de 2010, temporada popular).

terça-feira, 8 de junho de 2010

o cachorro preguiçoso
que se enrola
tal qual cobra
move o rabo
em pleno vento
- que bom alento!

ele dorme ao relento
e desanda a coçar
coça coça coça coça
toda a pele ele roça
com a unha e a areia
não acho que com sereia
mas sinto que vive a sonhar
o palito de sorvete
com que mexo o açúcar
no café com leite
bóia
não obstante o peso da mão
resiste nas alturas
da superfície marrom
tão distante do chão
do copo
sustentando-se em pé
como po-
de; empina, cede, vem
em diagonal em um balé
leitoso cor de café
este pedaço de madeira
bóia
como a barcarola
que me trouxe até
aqui.