sexta-feira, 27 de julho de 2012

(alberto da veiga guignard, ouro preto, 1951)

***

ela contou que do galinheiro
fez uma garagem
que do fogão a lenha
fez azulejos.

tudo é belezura,
tudo é chiquê - 
só uma chuva miúda
um frio de entrar nos ossos
mudam a paisagem:

são neblinas doídas
dissolvendo o morro.

(heitor ferraz, "depois de guignard", resumo do dia, sp: ateliê, 1996)

nenhum recado de morte
que sempre abala
tanto a família.
o mundo perplexo parou
e a vida
oblíqua
preferiu continuar traindo
sem matar ninguém.

(heitor ferraz, "resumo do dia", resumo do dia, sp: ateliê editorial, 1996)

sábado, 14 de julho de 2012



(johannes vermeer, menina com brinco de pérola, 1665 aprox.)



(david barton, marge simpson, 2010 aprox.)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

poesia de 1o. de outubro

meu coração está batendo pelo teu...
odeio este jornal que me separa de ti
me separa de ti...
me separa...

gosto da minha mão quando há um elástico no punho.
ou mesmo um barbante branco,
esfiapado,
desses que os padeiros usam para embrulhar
o pão.
então os meus dedos ficam longos e repousados
e parecem não dizer nada
rindo-me de dentro de um silêncio que me apraz.

baixa teu jornal, homem!


***

ciúmes

Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
tão distraidamente.

(ana cristina cesar, inéditos e dispersos - poesia e prosa, sp: brasiliense, 1985)

domingo, 8 de julho de 2012

quatro sonetos

4. existencialismo

No fim das contas, que me resta? O sono,
o despejar meus restos na privada,
o querer tudo, não poder mais nada,
não responderem mais se eu telefono.

Ir à cozinha, no meu abandono,
comer um pote dessa marmelada,
voltar ao quarto, pôr o meu quimono,
deitar na minha África sonhada.

Ler um pouco de Sartre, abrir a boca.
Riscar num bloco uma bacante feia.
Ligar o rádio: uma cantora rouca.

Sentir meus olhos grávidos de areia.
Sentir no fundo uma saudade (pouca).
Ir olhar que horas são. Duas e meia.

(o vôo circunflexo, rubens rodrigues torres filho, sp: brasiliense, 1987). prêmio jabuti de 1981. além de poeta, rubens rodrigues era professor de filosofia. 
Aqui, de ditadura em ditadura, 
democracia cai nos intervalos.
Cavalaria é própria de cavalos.
Um homem pode ser cavalgadura.


República com fardas se inaugura.
As botas fazem bolhas, causam calos.
Moeda fraca escorre pelos ralos.
Fuzil, neste país, ninguém segura.


Um dia, a economia desmorona.
Golpismo, Estado Novo, Redentora,
acaba tudo em pizza, em puzza, em zona.


Passa de mão em mão, como se fora
a troca duma guarda sem dragona,
sem honra ou tradição, só sucessora.


("Civil", Glauco Mattoso, Poética na política: cem poemas panfletários, SP: Geração, 2004, p. 107). É o livro do Glauco de que eu menos gostei, mas um poema ou outro dão bons panfletos.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

porco-espinho

da cratera morta
sai
um porco-espinho

cactomóvel
que afasta
perfume e garras

apalpado
apenas 
no dicionário

***

epitáfio para um fabricante de armas


Aqui jaz:

Este nada fez

pela paz.
Agora faz.


***

haicai

seca

corvos
nos galhos curvos:
únicas folhas

dia lento

dia lento:
um velho cavalo
subindo a encosta


(espelhos da chuva. haicais, sp: taturana, 2011)


cláudio feldman é um dos maiores poetas de santo andré. autor de, entre muitos outros, photoprovincias (sp: taturana, 2011).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

servidão involuntária

a voluntariedade da internet do crusp me tem feito mais e mais religiosa.