quarta-feira, 13 de abril de 2011

“Meu pai me inicia na infância. Ele me cria como um menino. Seu orgulho. A graça de uma menina. A agilidade de um menino. Eu tenho sua vontade, ele diz. Ele me ensina o fute, o vôlei, o crawl. Ele me ensina a mergulhar nos rochedos morenos e brilhantes. Como os bandidos.
Ele transmite sua força. Ele me ensina a me defender no país dos homens. Correr. Saltar. Se salvar. Ele desvia minha fragilidade. Ele me chama de Brio. Eu ainda ignoro por que. Eu amo este prenome. (...) Os homens da praça de Hydra. Suas mãos nos meus cabelos. O filho ou a filha de Rachid?
(...)
Uma mulher sobe a falésia. Ela não é argelina. Ela não é francesa. É uma boa nadadora, dizem. Ela não mergulha, ela dá. Seu corpo. Sua impulsão. Sua flexão. Seus ombros fortes. Paola. Seu filho chama. Pelo seu nome. Paola. Seu marido que procura. Ela retorna, rápido. Encostada no muro. Um animal. Ela espera sua vez. Ela está perto de mim. Ela diz. Você é bonito. Eu não respondo. Eu mergulho. Eu escondo meu rosto. Eu mergulho. Com vergonha. Eu não subo de volta. Eu detesto o mar. Eu desteto os mergulhadores. Eu detesto a França. Eu detesto a Argélia. Você é bonito. Amine desmente. Amine me protege. É Nina. É uma menina. Amine se defende. Ela não amaria assim um menino. Ele ama esta menina. Esta falsa menina. É a sua loucura. Para este macaco. Para este travesti. Paola. Você é ainda mais bela se você é uma menina. Eu não respondo. Eu não sei. Eu não me sei.
Paola. Suas pernas. Seu cigarro. Seus lábios que fumam. Sua voz que pronuncia. Paola. Seu ventre. Sua pele. Ela fica sobre o rochedo. Ela me olha. É uma adoção. Sua voz e seus mergulhos. Suas mãos nodosas. Mãos de mulher. Sua fumaça no meu rosto. Este cheiro com o cheiro do sal. Minha vergonha é um silêncio infinito. Minha vergonha fecha minha vida.
O mar toma tudo. Eu o olho. Com todas as minhas forças. O mar se retira. Eu o retenho só pelo meu corpo, que não se vira jamais completamente sobre o corpo de Paola. Eu fico em equilíbrio. Eu fico em desequilíbrio. Paola. Eu rezo a noite. Eu rezo o céu. Eu rezo Amine. Paola. Por muito tempo eu escutarei sua voz.
(...)
Você tem os cabelos longos, negros e afivelados. Você chora por nada. Você geme. Você é chamado de fonte. Você tem crises de nervos. Eu te subo à cabeça. Tua pele é tão branca, tão fina. Você envelhece sob a pele de uma menina. Eu te ensino as forças do corpo. Eu te amo como um homem. Te amo como se você fosse uma menina. Você funda a mentira de toda minha vida. O mundo inteiro se confunde em mim. Sou eu que é preciso salvar de você, Amine. Sou eu que estou em perigo. É de mim que é preciso cuidar, sou eu a ser curada. Tomada em conta»
(Nina BOURAOUI, Garçon manqué, p. 24; 36; 62, l. tr.).

Nenhum comentário: